Monday, April 24, 2006

Viagem Virtual

Oi Maria, tudo bem?
Que tal acompanhar-me numa viagem ao tempo e ao espaço? ... Se você aceitar é só seguir corretamente as instruções abaixo:
Primeiro: A cada parágrafo, feche os olhos e imagine. Tente visualizar a cena que descrevi.
Segundo: Esteja “com a mente quieta a espinha ereta e o coração tranqüilo”.
Terceiro: Leia até o fim.
Quarto: Quando terminar de ler, deixe vir naturalmente ou force um suspiro.
Se está pronta para seguir as instruções! Então vamos começar nossa viagem.
O tempo é 21, de setembro, 1.995, um sábado, às oito horas de uma manhã quente.
O espaço é a Rua Olhai Os Lírios Do Campo, 25, minha casa e a sua 26 bem na frente, Aracati, uma típica cidade litorânea cearense. Aracati é uma cidadezinha pacata, com pouco mais de dezoito mil habitantes, cuja economia é baseada praticamente na pesca e no turismo de alguns aventureiros, pois lá não existe cinema. Pela manhã a cidade é tomada pelo cheiro de café com leite, pão e manteiga, ao meio dia pelo cheiro de feijão bem temperado e a noite por camarão frito e servido nos pequenos quiosques a beira mar. Só tem um hotel e de vez em quando esta monotonia só é interrompida por um ou outro circo que eventualmente aparece. Muitas de suas casas ainda mantém a arquitetura do início do século passado, suas ruas são de paralelepípedos o que faz aumentar mais ainda o calor que a cidade sempre teve debaixo daquele sol estonteante, o índice de violência é “zero”, salvo alguns moleques ladrões de galinhas. Enfim, aqui na Terra, Aracati é a cidade mais próxima possível do paraíso.
Neste lugar e neste exato momento, acordo já pensando em você Maria, sei que terei de ser rápido ao me aprontar, pois as oito e trinta, você estará saindo para ir as compras do dia, e como sempre não posso perder a oportunidade de te ver passando, linda com seu vestido rodado cheio de florzinha. E eu com o pretexto de lhe desejar um simples bom dia, me aproximo o mais perto possível para sentir o doce aroma da sua pele, aroma de quem acabou de sair dum banho demorado com sabonete “seiva de alfazema”.Ah! Maria... O seu jeito especial, o seu corpo solto ao vento não sabem do meu sofrimento. Fico completamente desnorteado, não sei o que é sul ou o que é norte, o que é céu ou que é terra, sinto o chão faltar-me aos pés, meu corpo explode em desejos e paixão, e os meus lábios tremem só em pensar num beijo teu.
Mas se Deus me ajudar, ainda hoje declararei o meu amor por você. Entretanto, você vai e volta das compras e mais uma vez não tenho coragem para tomar qualquer iniciativa nesse sentido.
O dia vai passando lento e dolorido e, o meu peito é só agonia, não tenho apetite, sede ou sono. Sou só desejos por você Maria.
Oito horas da noite, o calor agora é insuportável, eu estou deitado e não consigo dormir. Levanto, tomo um banho de água fria, tento te esquecer, mas percebo que te esquecer e negar minha própria existência. Abro a janela e do outro lado da rua você está debruçada sobre o parapeito da janela do seu quarto, observando o pequeno movimento da rua e o céu que desta vez está mais estrelado do que nunca antes visto, apresentando uma lua cheia e enorme no centro do firmamento. Eu penso:... Moça bonita, sai dessa janela e me deixa dormir em paz.
Dez horas da noite e a única coisa que mudou nesse cenário foi a posição da lua, que agora está no horizonte adentrando ao continente.
De repente sou tomado por uma súbita coragem vinda não sei da onde, e de forma natural começo a cantar com voz de cantor lírico:
“A lua girou, girou,
Traçou no céu um compasso.
Eu bem queria fazer,
Um travesseiro dos seus braços”.

E para minha surpresa, ouço sua voz a responder:

“Travesseiro dos meus braços,
Só não faz se não quiser.
Sustente a palavra de homem,
Que eu mantenho a de mulher.”

Nota: Entre aspas, música de domínio popular, gravada por Milton Nascimento.


(Lino Miranda)

Monday, September 05, 2005

A Carta

Fique com ninguém, fique sozinha.
Faz de conta que é novela, e no último capítulo, fique comigo.
Fique comigo, porque quando você num gesto natural... (Talvez o mais natural dos gestos entre vocês mulheres...) Leva o cabelo para trás das orelhas, é que percebo o quanto o tempo é imenso, não, imenso é a lira, não, imenso é o tempo, de lira.
Fique comigo, que te prometo rimar o significado da palavra paixão com o significado da palavra harmonia.
Paixão, harmonia, paixão, harmonia, harmonia, harmonia, harmonia...
Deus, oh meu Deus, grande Deus de Abraão, não posso está delirando. Delirando, por um sentimento antigo e morto.
Logo eu que me jurei se bruto, perverso e nunca mais viver conquistas nem perceber ternura dos ramalhetes de rosas, das caixas de bombons, dos lenços bordados com iniciais, das músicas de Antônio Carlos Jobim, nem mesmo se quer notar a passagem da primavera.
Logo eu que sou de concreto e aço e faço questão de ser vilão, moleque que fala palavrão e mostra a língua.
Mentira...
Logo eu que sou de carne e osso e faço questão de se herói, menino educado que limpa os pés antes de entrar em casa.
Logo eu “que nada tenho e nada sou” a não ser, ter e ser meu violão e meu chapéu.
Mas também, logo você!
Logo você, que tem pedestal e mora no alto de uma torre, num castelo distante. E é protegida por Atena, deusa das artes e da sabedoria, Afrodite, deusa do amor, da beleza e da sedução. Enfim: poderosa e intocável.
Seu castelo tem muralhas altas e é cercado por um pântano sombrio, com dragões de sete cabeças que soltam fogo.
Logo eu terei de enfrentar feras?
Saiba que não tenho armas pra te conquistar.
Por isso desce dessa torre e me ajuda.
Pega minha mão, cante uma canção.
“Eu sei que vou te amar...”
Faz de conta que hoje é o último capítulo.
(Lino Miranda)

Friday, August 05, 2005

Cerzindo com Chico Buarque

Como é que tudo isso começou?/Quando eu nasci veio um anjo safado/E decretou/Que minha vida, querido/ De guerra e paz, contras e prós/ Não é nenhum mar de rosas/Eu toda a minha vida/Caminhando na ponta dos pés/Sem jeito eu lhe pegava as mãos/E eu a esperar pela ternura/Me desmilingüindo toda/Mas para meu desencanto/O meu projeto de vida/De sonho e fantasia/Já ficou descrente/Chorei, chorei/ Falando de lado e olhando pro chão/E me arrastei e te arranhei/Fraquejou a voz/E eu não queria acreditar/É sempre o mesmo truque/ me esquece na noite escura/Eu disfarço o cansaço/Não quero seguir definhando sol a sol/É inútil dormir que a dor não passa/E finjo que finjo que finjo/Que não sei/Onde os sonhos extraviados vão parar/ Fiz promessa até prá Oxumaré/Mas uma cigana revelou/Ai, como essa moça é descuidada/Nos sonhos que ela gosta de sonhar/Sonhou se desatar de tantos nós/Ouve a declaração, oh bela/Que a boa brisa lhe soprou/Chora não/Segue em paz/Deixa balançar a maré/E a poeira assentar no chão/Que vem aí bom tempo/E esse dia há de vir antes do que você pensa/Será que é mentira?/Eu hei de ser, terei de ser, serei feliz, feliz/Agora falando sério/Se a vida mesmo assim não melhorar/Eu faço desatar a minha fantasia/E nem quero saber como se dança o baião/Eu arrombo a janela... :0)

Friday, July 22, 2005

A Indenização

Na minha direita, quero meu pai com seu costumeiro olhar curioso, com acordeom na mão apertando-o contra o peito e tocando Asa Branca... Inocência, meu Deus, inocência...
A minha esquerda, porém não menos importante, quero minha mãe sentada numa cadeira rústica de madeira crua cingindo a barra de um vestido novo, feliz e realizada por suas obras e criações... Inocência, Maria de Jesus, inocência... Ao seu lado quero meus três filhos sadios e sem vícios. Meus nove irmãos batendo palmas e cantando Gracias A La Vida.
Do outro lado, junto ao meu pai, quero os dois primos que mais gosto jogando dama; um amigo desses que a gente tem desde a infância e nos acompanha do primário ao superior, desses que nos convidam, ou nós convidamos para padrinho de casamento. E um sobrinho brincando de carrinho.
Agora, ao meu redor, não importando em que lado estejam, quero a comadre Sebastiana para ajudar-me no refrão: a, e, i, o, u, y.
Quero uma dupla de repentistas debulhando o tema: “:Agora Inês È Morta”.
Quero uma tia benzedeira cantando canções do Deus Menino.
Quero os bons vizinhos que tive nas tantas vilas que morei.
Quero que finalmente quebrem meu porquinho, contem as moedas, consultem às horas, comprem cerveja, encham de petiscos a bandeja, quero todos molhados de suor de tanto dançar forro.
Quero minha esposa debruçada sobre meu peito compartilhando um cachecol rosa clarinho, quase branco.E sem o meu convite, contra o meu querer, na minha frente, diante dos meus pés do meu corpo deitado, um advogado da Souza Cruz com um cheque de treze milhões de reais.

(Lino Miranda)

Thursday, July 21, 2005

Três anos sem respostas

Por que você se foi tão cedo? Por que antes de eu descobrir o quanto o admirava? Por que antes de responder os porquês de minha filha? Por que antes de um abraço? Por que antes de mais um conselho? Por que antes de eu pegar um pouquinho de sua sabedoria? Por que justo quando eu descobri sua fragilidade? Por que exatamente na época em que você voltou a brincar? Por que antes de falar com minha filha sobre os fenícios, os fariseus e os hebreus? E agora, quem ensinará tão bem? Por que sinto falta de alguém que me corrija os erros de português? De alguém que me teste o conhecimento? Por que fazia questão de só mostrar sua face rude? Por que sua risada era tão rara? Por que insistia em ser pai de todos? Por que não fazia elogios? Por que fazia vista grossa para nossos erros? Única que sei a resposta...Por que não passa um só dia em que eu não me lembre de você?

Thursday, July 14, 2005

Poft... Pulos da cama e plaque-plaques ligeiros. Não entendeu? Tenha filhos.
E também,
Passinhos apressados no corredor não te dizem nada? Tenha filhos.

Wednesday, July 06, 2005

Raquel faz seis anos

Raquel seis anos
Raquel seis encantos
E outros tantos
Raquel sabida
Raquel bonita
Raquel esperta
Raquel sapeca
Raquel feliz


O mundo não é mais o mesmo desde 06 de julho de 1999.
Feliz aniversário, Raquel.